Regina
Célia Pinto, no Rio de Janeiro, entrevista:
REGINA
VATER (artista visual e poeta visual brasileira, atualmente residindo
no Texas, USA)
------------------
RCP>
Gostaria
em primeiro lugar que você me contasse um pouco da sua infância
e da sua formação artística. Quando foi que decidiu
que seria artista?
RV>
Penso que desde muito pequena. Desenhava sem parar. Desde os três,
quatro anos de idade eu tinha uma enorme paixão por tudo que
era visual. Minha mãe dizia que quando eu crescesse deveria
casar com um dono de papelaria... Descobri muito cedo que ser artista
era algo importante, pois quando ia ao meu pediatra, o Dr. Calazans
Luz, que era colega de medicina do meu pai, ele me pedia que eu pagasse
a visita com um desenho de baiana. Eu adorava desenhar baianas ...
Parece que desde essa época eu já me interessava pelo
que as nossas raízes poderiam me inspirar....
Com cerca de nove, dez anos de idade, era muito arteira e comecei
a fazer umas "instalações" em nosso apartamento
em Copacabana. Um dia , fascinada após ler no "Tesouro
da Juventude" sobre os Jardins Suspensos de Babilônia,
decidi fazer uma réplica . Minha mãe havia saído
pra compras e deixado minha irmã e eu sozinhas em casa, no
Posto Seis. O apartamento estava cheio de flores por causa de uma
festa de aniversário que havia ocorrido naquela semana. Sem
hesitação, sob o comando da minha experimentação,
cavei com um grampo, a cera entre os tacos do assoalho da sala de
visitas e lá espetei várias flores. Quando minha mãe
abriu a porta da entrada deu de cara comigo e minha irmã regando
aquele fantástico jardim. Creio que esta foi a minha primeira
instalação, porém não a última...
Ainda naqueles tempos várias outras se seguiram no mesmo tom
de ousadia e alegria na liberdade do experimentar. Minha mãe
ralhava muito, mas acho que no fundo se divertia muitíssimo
com a nossa criatividade... Na adolescência comecei a desenhar
e a pintar como desesperada. Até que finalmente o meu pai me
deu umas tintas a óleo, mas se esqueceu de me dar os pincéis.
Na noite do presente, de tanto entusiasmo, passei a madrugada inteira
pintando com os dedos. Mas meu pai, que não entendia nada de
arte, queria que eu estudasse pintura com um cliente dele. Um pintor
belga chamado Vanback (creio que é assim que se escreve). Mas
eu já andava ciente do Van Gogh e achava o que o Vanback fazia
ultra-acadêmico. Continuei então no meu autodidatismo,
até que um dia descobri que o Frank Schaffer dava aulas bem
perto da nossa casa.
Como
meu pai se negou a pagar as minhas aulas com o Frank, resolvi começar
a trabalhar para que eu mesma pudesse pagá-las. Fui trabalhar
com o meu pai numa clínica que ele tinha em Botafogo, e comecei
a dar aulas de geometria.
E
assim foi, até que entrei para a escola de arquitetura. Nesta
mesma ocasião, comecei a freqüentar o atelier do Iberê
Camargo, o qual me ajudou a me libertar mais, das regras e das normas
na arte.
Não
foi nada fácil entender que em arte não existe regra.
Que é você quem as faz. Creio que tanto o que fiz na
infância, como os encontros que tive com Iberê (no início
dos sessenta) e com Hélio Oiticica e Lygia Clark mais tarde
(anos setenta), me ajudaram muito a perceber que como diz o Gil: em
arte "o meu caminho eu mesmo faço".
A
minha fé de que a arte seria o meu caminho era tão grande
que logo abandonei a arquitetura. Porém, até hoje, mantenho
com ela uma relação toda especial. Visto que acabei
fazendo mais de 150 instalações (o que denota a profunda
relação que tenho com o "ESPAÇO" --
por favor, leia o texto que escrevi sobre o espaço no http://www.imediata.com).
Esta crença de que a arte implica em liberdade/invenção/experimentação,
me conduziu a um trabalho totalmente não comercial. Para sobreviver
inventei então uma carreira paralela como artista gráfica
. Para isso me vali dos preceitos de ordem, harmonia e organização
de espaço aprendidos na Faculdade de Arquitetura. Desde muito
cedo, (anos sessenta), produzi muitos trabalhos gráficos no
Rio. Como por exemplo: alguns cartazes de cinema para os irmãos
Faria e para o Luís Carlos Barreto. Fui inclusive convidada
por Fernando Lobo a produzir um desenho para a capa do disco Tropicália.
A Phillips inclusive me pagou e pôs o meu gouache na moldura.
Fiquei ciente disso muitos anos mais tarde quando fiz a capa do Calabar
para o Chico Buarque de Hollanda. Numa das nossas reuniões
na Phillips, vi o desenho pendurado numa das paredes do escritório
dessa empresa. Eles não utilizaram a minha capa porque o Guilherme
Araújo optou por algo que mostrasse a foto dos participantes
da Tropicália. Joaquim Pedro também andou me cercando
para que eu fizesse os títulos para o Macunaíma. Contudo,
quem era eu (um garota tímida) pra competir com artistas que
já tinham todo um "network" formado.
Esse
foi um dos fatores que me fez mudar para São Paulo em 1970.
Acreditava, (e estava certa), que lá teria muito mais chance
de sobreviver como artista gráfica. São Paulo tem um
parque gráfico maior e é uma terra de imigrantes que
valoriza mais a nossa capacidade e o que produzimos do que as relações
que estabelecemos. Neste sentido São Paulo não só
foi um treino mas um trampolim para a vida no estrangeiro.
RCP>
Gostaria que você me falasse de seu trabalho com livros de artista.
Para começar, como iniciou esse tipo de produção?
RV>
O
primeiro livro de artista que fiz foi em Nova York em 1973 e fazia
parte da série Luxo-Lixo. Foi um livro em silkscreen que eu
mesma imprimi nas oficinas do Pratt Manhattan onde fazia um curso
de Silkscreen. Era um pequeno envelope manilha com lâminas de
transparências nas quais estavam impressas palavras que sobrepostas
formavam um poema.
RCP>
Que
livros você fez até hoje que mais lhe agradaram e por
quê?
RV>
Quando fui para Paris em 1974, fiz um livro em fotocópias preto
e branco, usando fotos que o Miro (fotógrafo paulista) e eu
tiramos durante todo um dia de Natal, no mesmo ponto da plataforma
(olhando para o outro lado) da estação de metrô
de Châtelet. Foi um trabalho inspirado num texto do Henry Miller,
que tem como tema o Natal underground. Também foi inspirado
por uma pequena parábola que Einstein contava para explicar
a teoria da relatividade. "Curto" muito esse livro, aliás
várias cópias dele foram roubadas nas várias
mostras nas quais o apresentei. Uma das vezes foi numa exposição
que Lucy Lippard organizou na Franklin Furnance nos anos 80. O título
da mostra, se não me engano, era Copy Cat.
RCP>
Por
que associa livro de artista e instalações?
RV>
- Gosto muito também do "Book of Hope" que fiz para
a minha residência no Art Pace Foundation em San Antonio e que
acompanhava uma instalação intitulada "The Lady
of Hope". Essa instalação foi inspirada em Oxumaré
(serpente do Arco-Íris) que no sincretismo brasileiro é
Nossa Senhora da Aparecida.
O
livro foi resultado da reunião de vários poemas, cartas
(quase ex-votos escritos) conectados com a esperança. Recebi
- os de vários artistas, de amigos não artistas, de
pessoas de todas as camadas sociais (incluindo empregadas de amigos).
Como imprimi a cores na minha impressora e sobre papel cartão,
só fiz uma cópia, que foi lindamente encadernada e por
isso recebeu um lugar de destaque no meu catálogo do Art Pace.
Como a instalação está relacionada com os altares
à Isis e às madonas negras das catedrais, o livro resultou
praticamente num livro de preces; embora muitas das contribuições
não abordassem esse assunto.
RCP>
Vamos conversar sobre "Sounds Good". Conte-nos um pouco
da sua amizade com John Cage, enfatizando a forma como ele lhe influenciou
na Arte.
RV>
Você
recebeu meu texto sobre Cage, que foi publicado (em Português
e Inglês) na URL: http://www.imediata.com?
Penso que você pode achar lá respostas para as suas perguntas.
RV>
Também
gostaria de receber algumas informações sobre o seu
livro "Sounds Good":
RV>
A parte técnica:
O
livro é composto de sorrisos; esses sorrisos foram fotografados
por você? E quanto à parte digital, à criação
do livro propriamente dito, também é sua, ou apenas
a idéia é de sua autoria? Você trabalha graficamente
no computador? Se trabalha, que softwares prefere?
RV>
Sim e Sim. Tenho um grande prazer no trabalho gráfico. O qual
como já disse anteriormente, fiz para sobreviver no Brasil
durante muitos anos. Criei várias capas de livro e também
de discos. Uso o Photoshop.
RCP>
A
forma e o conceito:
A
idéia de fazer um livro sanfona foi muito boa, sugere uma cascata
de risos ou que o riso é contagioso. Também foge de
uma narrativa linear. Será que com esse formato, o que pretendeu
foi mostrar a possibilidade da expansão desse conceito: "O
ato mais revolucionário que se pode cometer no mundo de hoje
é ser feliz?" Ou você não pensou em nada
disso quando o criou em forma de sanfona, não havendo nada
de racional no processo, apenas pura intuição?
RV> Gostei muito da sua interpretação
inteligente e sensível, mas francamente o resultado brotou
intuitivamente da minha experiência como artista gráfica.
Pretendi que o livro continuasse nas costas (o que de fato acontece
na versão menor). A intenção desse formato era
de dar um sentido de "loop" sem fim. Como um voto para que
o sorriso no mundo nunca acabasse. Isto é o que eu me lembro
que pretendi alcançar graficamente, mas não sei se as
pessoas interpretam desse jeito.
RCP>
Interação:
Conte sobre a instalação "Sounds Good" e a
reação do público presente.
RV>
Bem, 4000 pessoas passaram por ela no intervalo de uma semana. Como
não estive lá o tempo todo é difícil de
saber. Mas como é uma instalação muito branca
(o que lhe dá uma luz interior) e ornada de sorrisos, todo
mundo me diz que é ultra "uplifting". Muitos me agradeceram
e disseram estar precisando de algo assim naquele momento. (Março
/ 2003)
RCP>
Quando e por que começou a se interessar por poesia?
RV> Quando criança,
no Jardim Botânico . Tinha eu uns dois, três anos de idade.
Era vizinha de um senhor que era poeta e que segundo minha mãe
era primo do "príncipe dos poetas brasileiros" (Alberto
de Oliveira) -- título que eu achava incrível e mágico...
Bem, esse senhor vivia fazendo e recitando poesias para mim. Isto
me conferia uma importância toda especial. A irmã do
meu pai também vivia dizendo que a gente tinha parentesco com
o "poeta das pombas" -- Raymundo Correia (eu até
fiz um trabalho de foto serial em Veneza /1976 ligado ao tema do Tempo
-- tema este que vem me acompanhando de longa data -- em homenagem
a esse poeta)...E meu pai também me dizia:- O seu tataravô
, (bisavô dele), foi um poeta muito importante. Tem até
praça com estátua dele em São Luís do
Maranhão...Ele estava falando de Odorico Mendes, cuja real
importância fui conferir com Haroldo de Campos, muitos anos
mais tarde. Também minha mãe, que sempre me ajudou nas
minhas redações infantis, é uma poetisa nata
e adora poesia. Lembro-me que no "Sacré Coeur" até
em Francês eu escrevia poesia. Tenho até um caso engraçado.
Na minha adolescência escrevia poesias sem parar. Como eu fazia
parte de um grupo que formou um jornalzinho, fui com as colegas à
casa do Manoel Bandeira para fazermos uma entrevista. Levei comigo
o meu caderno de poesias. Depois da entrevista feita, meio acanhada,
pedi a ele que lesse os meus poemas. Depois de uma passada de olhos
pelo recheio do caderno ele virou-se e perguntou: - Menina você
sabe o que é catapora? Eu respondi: - Sim, é uma doença
que quase toda criança tem. Ai ele argüiu: - Pois bem,
a poesia também ataca muitos adolescentes... A partir daquele
dia arquivei o caderno e a minha pretensão de ser poeta...
Como eu já desenhava ferozmente, levei pro visual quase todos
os meus furores. Mas a poesia nunca deixou de ser importante e venerada
por mim.
Nos
sessenta, (quando já ganhava a vida como programadora visual),
fiz o design para um poema da Eliane Zagury. (O mercado -- publicado
pelos Cadernos Brasileiros) e isto me abriu muito a visão para
a poesia concreta.
Até
então, o Drummond para mim era o rei. Inclusive fiquei sua
amiga epistolar. Ele chegou até a escrever um poema para mim.
Poema este que se perdeu na "Petite Galerie", quando para
lá o enviei para ser emoldurado. (Nunca os perdoarei por isso!)
Quando
iniciei a minha fase dos "NÓS" em 1972, (Drummond
inclusive escreveu sobre ela numa de suas colunas do JB). Foi nessa
época que me dei conta de como o título da obra é
uma importante parte poética e intrínseca do trabalho.
A partir dali e sobretudo mais tarde, com todo o conhecimento que
adquiri sobre Duchamp, colocar título numa obra é tão
importante quanto o conceito com que nela trabalho.
No
início dos anos setenta fui apresentada à poesia concreta
por acaso. Por Olga Savary. Já morava em São Paulo naquela
época. A Olga veio me visitar depois de uma visita ao poeta
Augusto de Campos. Ele a havia presenteado com o poema Luxo-Lixo,
e ela apareceu com o poema no meu ateliê. Confesso que fiquei
fascinada e este poema nunca me saiu da cabeça. Meu marido
diz que a obra seminal é aquela que lhe vem à cabeça
em recorrências, "over and over again".
Quando
cheguei em Nova York em 1973, ao primeiro impacto da cidade, o poema
veio à minha mente como um grande "Outdoor". Inspirada
por ele, comecei a trabalhar numa grande série. Foi então
que comecei a experimentar com poesia visual. Produzi então
em silkscreen, no Pratt Institute, um pequeno livro de artista titulado
"Garbage".
Desta
série também são os "Postalixos" ou
Land(e)scapes que formaram um trabalho de arte postal. Depois vieram
as Scu(ru)ptures (fotos de situações onde o lixo se
acumulava num momento estético comparável a uma escultura).
E por fim o áudio-visual composto de fotos de lixo e do luxo
de Nova York. Para o som, eu escrevi um poema que o Hélio Oiticica
leu. Aliás o Hélio gostava tanto desse trabalho que
ele não só insistiu que eu escrevesse para o Augusto
contando do mesmo, como também me ajudou a fazer o som. O som
desse áudio-visual foi um concerto a quatro mãos, de
sons (sem edição) de rádio e TV americana. Rádio
e TV manipulados por mim e pelo Hélio, que nesse mesmo momento
lia o tal poema que eu escrevi. Com esse áudio-visual eu participei
da Bienal de Veneza de 1976 -- a primeira exposição
internacional dedicada à ecologia.
Como
você vê, eu percorri um caminho orgânico e natural
que desembocou na poesia visual. Mas levou muito tempo até
eu ter a coragem de me considerar poeta. Poesia pra mim pertence ao
terreno do sagrado.
Mas
não é só a poesia visual que me atrai. POESIA
é POESIA.
Recentemente,
num arrojo de bravura (inspirada pelo seu pensamento e filosofia,
e talvez também pelo desejo de compartilhar com outros parte
da minha poesia narrativa, salpiquei o "site' do Edgar Morim
-- http://edgarmorin.sescsp.org.br/
com vários dos meus poemas. Se esse "site" ainda
estiver no ar, a convido a dar uma olhada nos tópicos: mito,
conhecimento, civilização, estética, olhar, ignorância,
exclusão, cultura, amor, caminho, intelectual, amizade, sujeito,
sabedoria, compreensão, animais, crueldade, vida, círculo,
música, Terra, sabor, ação, verdade, viagem,
morte, literatura. Lá chegando vá clicando até
me encontrar...
RCP>
Você
considera seus livros de artista como poesia visual?
RV>
Sim, há uma forte ligação entre livro de artista
e Poesia Visual.
RCP>
Tem conhecimento da importância das novas tecnologias (animação,
som e interatividade) para a poesia visual? Você se interessa
por softwares que possibilitam a criação dessa nova
poesia?
RV>
Claro, só não lancei mão desses recursos até
agora por falta de oportunidade e por falta de instrutor. Meu marido
até que sabe dessas coisas e até as ensina, mas como
você sabe: "Casa de ferreiro..."
RCP>
Considera
que apenas agora os poetas têm como realizar perfeitamente o
que Mallarmé predisse com o seu "Coup de des" ?
RV>
Arte
para mim é o terreno supremo da liberdade, portanto tudo nela
é possível. Para mim é sempre o artista quem
inventa as suas próprias regras. Mas é importante também
que no experimental desabroche a importância e a inteligência
do conteúdo... Sem este, tudo não passa de gestos gratuitos.
O
cultivo da experimentação e do conteúdo devem
vir lado a lado.
RCP>
Você se interessa pelos novos "poetas tecnológicos"
e pelos softwares que possibilitam a criação dessa nova
poesia?
RV>
Sim principalmente por aqueles que têm algo a dizer. Não
sei se gastaria muito da minha atenção com shows de
mágica...
RCP>
Domina algum desses softwares?
RV>
Já repondi que em casa de ferreiro o espeto é de pau...
RCP>
Vamos
conversar um pouco sobre a belíssima mostra "Brazilian
Visual Poetry Show", da qual você foi curadora e participou
com a instalação "Camões' Feast". Sobre
o trabalho de curadoria você escreveu:
"Gostaria
de deixar claro que me tornei curadora desta, não movida por
aptidões acadêmicas nem tampouco por ambições
profissionais. Meu trabalho curatorial brotou do seio do processo
criador. O que me move é a própria energia criativa.
E talvez, por considerar-me uma artista / poeta, e também por
conta da minha familiaridade com o trabalho de vários poetas/
vigas mestras do gênero e das mídias."
Foi
a primeira vez que você fez curadoria?
RV>
Não, fui curadora em 1979 de uma mostra apresentada na "Nobe
Gallery" (57th street- Manhanttan), da qual participaram:
- AMALIA TOLEDO,
- ANNA BELLA GEIGER
- ANNA MARIA MAIOLINO
- ANNA SZULC
- BENÉ FONTELES
- BETTY LEIRNER
- CARLOS VERGARA
- CARLOS AUGUSTO LACAZ
- CILDO MEIRELES
- CLAUDIO TOZZI
- DIMITRI RIBEIRO
- EDGARD BRAGA
- FLORIANO RAISS
- FRANCISCO INARRA
- GABRIEL BORBA
- GRABRIEL ZELLMASTER
- GENILSON SOARES
- GILSELDA LEIRNER
- GRETTA
- HELIO OITICICA
- JULIO PLAZA
- LEONHARD FRANK DUCH
- LYGIA CLAK
- LYGIA PAPE
- LUCIANO FIGUEIREDO
- LUIZ FERREIRA
- MARIA CARMEM ALBERNAZ
- MARIA DO CARMO SECCO
- MARIA LUIZA SADI
- MARIO ISHICAWA
- MAURICIO FRIEDMAN
- NELSON LEIRNER
- NEWTON MESQUITA
- OSMAR RAMOS
- OSMAR FONSECA
- PAULO BRUSKY
- PAULO GARCEZ
- REGINA SILVEIRA
- REGINA VATER
- ROBERTO EVANGELISTA
- ROBERTO KEPLER
- ROGÉRIO LUZ
- RUBENS GUERCHMAN
- TERESA SIMÕES
- TUNEU
- TUNGA
- UBIRAJARA RIBEIRO
- VERA CHAVEZ BARCELLOS
- VERA SALAMANCA
Esta
talvez tenha sido a primeira exposição de arte brasileira
em Nova York que enfocou a experimentação e a contemporaneidade
da nossa arte.
Também
fui curadora de uma mostra de super oito (no princípio dos
oitenta). Aconteceu no Millenium, em Nova York, e dela participaram
Ana Maria Maiolino e o Paulo Bruski.
Também
de uma mostra de fotografia brasileira numa galeria do Village e mais
uma mostra de arte latino-americana: a "Latino American Visual
Thinking" (numa galeria no estado de Nova York), ambas no princípio
dos oitenta. Dessa última participaram 12 artistas, entre eles:
Ana Bela Geiger, Ana Mendieta, Papo Colo, Liliana Porter, Camitzer,
Catalina Parra, Cecilia Vicuna, Alfredo Jaar, Juan Downey, etc.. E
em 1983 eu fui uma das editoras da primeira publicação
de arte nos Estado Unidos sobre arte contemporânea Latino Americana.
Um número da revista Flue nº 2, vol. lll publicada pela
Franklin Furnance Archives, New York, e que continha, entre outros,
trabalhos por Roberto Evangelista, Lygia Clark, Lenora de Barros e
Regina Silveira do Brasil, Luis Dias da Guatemala, Jonier Marin da
Colômbia e Clemente Padín do Uruguai.
RCP>
Como fez para selecionar os artistas que participaram da mostra? Apesar
de afirmar que a curadoria nasceu do próprio processo criador,
como se sentiu fazendo curadoria? Se a curadoria foi conseqüência
do processo criador, existiram diferenças entre a Regina Vater
curadora e a Regina Vater artista?
RV>
Nunca pensei nisso. Não sei como responder. Talvez a diferença
tenha sido o fato de não ser tão intransigente na escolha
dos artistas como sou comigo mesma quando produzo um trabalho. Procurei
acolher a todos de uma maneira mais flexível, talvez.
RCP>
Qual a maior satisfação que obteve com essa mostra?
RV>
A crítica de seis páginas do crítico e também
bom poeta Raphael Rubinstein, que saiu na revista "Art
In America", considerada junto com a "Art Forum"
a revista mais importante sobre artes plásticas nos Estados
Unidos e quiçás no mundo. Essa revista jamais publicou
uma matéria tão grande sobre alguma exposição
feita em Austin... Pessoas me escreveram da França perguntando
mais dados sobre a mostra por conta dessa matéria...
RCP>
Aconteceu algum fato engraçado, curioso ou emocionante durante
o trabalho de curadoria ou durante a exposição propriamente
dita?
RV>
Todo o trabalho dessa mostra foi muito emocionante no bom e no mau
sentido. Não sei nem se quero reviver todas aquelas emoções.
Me desgastei tremendamente. Engordei trinta quilos. Quando tudo acabou
fiquei doente de cama. Fiz tudo quase sem dinheiro nenhum, usando
um velhíssimo Mac que acabou escangalhando no final. Trabalhei
o tempo todo (um ano inteiro e mais cinco meses) só com a ajuda
magnânima e gratuita de três editores e mais o meu marido
(quando ele não estava furioso comigo pelo fato de eu não
estar lhe dando a devida atenção). Cacei literalmente
mil coelhos montada numa vaca. E colhi muitos furacões...
RCP>
E
quanto ao seu próprio trabalho, a instalação
"Camões' Feast", ela decorreu também do seu
objetivo de permitir ao público americano um contacto maior
não só com a nossa língua, mas com a nossa cultura?
RV>
Sim, lógico.
RCP>
Por
que então Camões se a mostra era sobre poesia brasileira?
RV>
Quando os americanos reverenciam Shakespeare eles não estão
fazendo distinção entre cultura americana ou cultura
inglesa. "minha Pátria é minha língua..."
RCP>
Por
que uma instalação se a mostra era de poesia?
RV>
Para
mim existem várias maneiras de se registrar poesia. Se hoje
as pessoas usam as maneiras digitais / visuais, porque não
a instalação? Aliás, não é algo
novo. O Augusto de Campos já havia feito isso e provavelmente
outros antes dele. Em arte não existem regras. O artista é
quem faz as próprias regras.
RCP>
O
que é poesia para você?
RV>
Essa
parte da pergunta já está respondida acima de uma certa
maneira. Mas pessoalmente, poesia para mim é a maneira mais
econômica e com a maior latitude, de se ir ao cerne das coisas.
Heidegger dizia que: A essência da ARTE é a poesia, mas
a essência da Poesia é a instauração da
verdade.
Tenho
muita dificuldade com poesia narrativa porque muitas vezes peca por
falta de economia, isso para não falarmos de latitude.
Muitos
poetas insistem em usar poesia para escreverem diários. Essa
forma de proceder, na minha opinião, corre o risco de confinar
o poema a um problema de ego, em vez de expandi-lo com valores universais.
Prefiro assistir novelas. Outra coisa que não tenho muita paciência
é com ornamentos de linguagem. Enfeites são sempre usados
pra esconder algo que não funciona muito bem.
RCP>
A
instalação "Camões' Feast" representaria
o espaço festivo da poesia na língua portuguesa ? Ou
talvez que a língua portuguesa é uma festa para a poesia?
RV>
Acho
que ao fazer essa pergunta você mesma a respondeu como boa espectadora
que parece ser.
RCP>
Entre
os convidados para o festim está Affonso Romano de Sant' Anna,
o qual escreveu recentemente uma série de artigos sobre arte,
no qual muitas vezes criticou instalações. Ele teve
oportunidade de ver a sua instalação? Se a resposta
for positiva, o que comentou?
RV>
Bem
eu estou fora do Brasil há muito tempo, portanto por fora dessas
brigas domésticas (tão mais comuns no Brasil do que
aqui fora...). Era a minha intenção colocar na mesa
de Camões amostras de várias tendências de poesia
no Brasil (autores vivos). O meu projeto não era exclusivo
mas inclusivo. Era como estabelecer diálogos entre a língua
portuguesa e a poesia com gente que não tem nada em comum.
O Affonso representa uma veia mais convencional (e eu sabia disso),
mas pelo menos ele não escreve diários...
Quanto
à maneira convencional dele encarar arte eu já poderia
ter intuído por muitos dos seus textos que já li, mas
nunca pensei que ele seria capaz de chegar a radicalismos tão
exagerados. Me lembro dele ter admirado o trabalho do Frances Torres,
um artista catalão que faz instalações super
provocantes e arrojadas. Deve ter acontecido com o Affonso o mesmo
que aconteceu com o Ferreira Gular. Ambos perderam a pedra....
RCP>
Como
você selecionou os artistas que participaram dessa mostra?
RV>
Pela minha familiaridade com o trabalho de vários daqueles
poetas.
Lista
de Livros de Artista de Regina Vater
1-
"Garbage", 1973, N.Y. (silkscreen).
2-
"Christmas Underground or A Brief Introduction to a Time Travelogue"
- Paris 33, 1974 (fotocópias preto e branco).
3
- Naturalezas Still Alive 1975 N.Y. (fotocópias coloridas).
4-
Tina América - 1975, São Paulo, produzido com fotos
em branco-e-preto (por Maria da Graça) coladas em álbum
de fotografias que foi comprado no distrito das noivas em S.P. (a
foto desse livro de artista está no catálogo do CAYC
- 1976), coleção Fátima Bercht.
5
- "Beds around the word", São Paulo, 1975, produzido
com fotos Preto e brancas e xeroxes coloridas coladas em álbum
de fotografias (a foto deste livro de artista está no catálogo
do CAYC - 1976)
6
- "O que é Arte? - São Paulo responde", 1978
S.P. (Massao Ohno editor)
7
- "X-RANGES" - edição limitada, livro de páginas
soltas impresso em Buenos Aires pela Galeria Arte Múltipla
(1976). É composto de x-ranges fotográficos das casas
de Hélio Oiticica, Lygia Clark, Vito Acconci e John Cage e
quatro silkscreens relativos a cada um destes artistas.
8-
"The Endless Book" (O Livro sem fim) , São Paulo,
1978, black and white photos.
9-
"Urbaccion" - São Paulo, 1978/1982, naipe formado
por fotocópias coloridas.
10
- "What Does Art Mean?" New York Answers N.Y.1980/1998 fotocópias
preto e branco.
11
-"Cinematic Drawing" - New York 1981 - livro de artista
instalação aproximadamente 20" X 44" baseado
nos rolos de papel Japoneses e inspirado no mito Amazônico da
corrida de tartarugas. Nessa versão Amazônica da corrida
entre a tartaruga e o animal mais rápido, a tartaruga vence
porque ela conta com o apoio de outras tartarugas como ela. Este trabalho
é uma referência transversal entre ambas versões
- a européia e ameríndia. O Coelho Branco -- que leva
um relógio em sua mão e nunca tem tempo -- está
impresso em intervalos regulares e iguais ao longo do lado da parte
de trás do jornal. No lado externo, em intervalos calculados,
de acordo com uma progressão matemática, uma tartaruga
indígena aparece desenhada 24 vezes, representando as 24 horas
do dia. Quando o desenho é enrolado, o coelho aparece 24 vezes
na parte superior do rolo de papel mas sempre atrás da tartaruga.
Quando o espectador termina de enrolar o rolo de papel a última
tartaruga já está esperando pelo coelho no fim da longa
peça de papel. Foi apresentado em um show individual na Galeria
de Eugenia Cucalon em Nova Iorque em 1981 e no MAC São Paulo
em 1986.
12 - "Harvest of Wisdom" - Austin
1987 fotocópias preto e branco.
13
-The Snake Scrap Book (O Livro de Recortes da Serpente)- Austin 1988,
conjunto de fotocópias que explicam a procedência das
imagens nas fotocópias em preto e branco emolduradas que perfazem
a instalação "Snake Nest" a qual também
pode ser considerada como um livro de artista.
Na instalação:
"Snake Nest" - 1988, Instalação 16' X 8' X
4' - Consistiu em 88 fotocópias em preto e branco emolduradas.
Nas fotocópias se vê imagens de símbolos de serpente
míticos representadas em partes diferentes da Terra como presságios
do bem ou do mal.
Inspirada pelo simbolismo de serpente em mitologias
diversas do planeta. Exibida no Museu de Laguna Gloria, Austin.
14-
Comigo Ninguém Pode, Chicago, 1988. Uma série de instalações
(de 1988 -- até 1995). O primeiro trabalho desta série,
que começou em 1984, foi um livro de artista exibido em "Artists
Books Works Store Window" - Chicago. Media 13 ' X 6 ' X 3 ',
consistia em fotocópias em preto e branco apresentando rostos
de todas as idades, raças e pessoas de níveis sociais
diferentes (A fonte das fotografias eram fotografias de registros
de identidade, feitas no Brasil, em 1982, por um fotógrafo
de rua), uma planta Dieffembachia e terra. Inspirada por tradições
afro- brasileiras de plantas sagradas e nos mitos universais da Árvore
de Vida e dos deuses mortos e ressuscitados.
15
- "ARTéMIS à NoUs" -Austin 1989, caixa de
luz, inspirada pelo livro de Octavio Paz sobre Duchamp ("Castillo
de Pureza" / Castelo da Pureza).
16
- "The Jaguar Eye' (ou "O Olho da Onça") - Austin
1998, impressão digital.
17
- "The Book of Hope" - San Antonio, 1999, impressões
digitais
18
- "Camõe's Feast" ("O Festim de Camões"
- Austin 2002, Off set, edição limitada, 500 exemplares.